terça-feira, 27 de outubro de 2015

O abandono afetivo e o papel das escolas

Em princípio, não podemos condenar ninguém por simples sinais. Não é todo ferimento ou toda irritação e agressividade manifestada pelo aluno que indicam necessariamente algum abuso sofrido, exceto em situação de espancamento evidente, em que o relato vier da própria criança ou for um pedido aberto de socorro, a exemplo do caso citado no início do texto. Mas o fato de notarmos mudanças anormais de comportamento e marcas físicas frequentes de agressão nos obriga a averiguar, pelo menos com o próprio educando e seus pais, para esclarecer e resolver desde logo os motivos dessas ocorrências.
É claro que nenhum dirigente educacional gostaria de entrar em atrito com seus respectivos contratantes, mas medidas são necessárias para proteger os interesses da criança e evitar acusações de omissão por parte da escola.  Nossa isenção e nosso profissionalismo compreendem o respeito ao alunado e o cumprimento de nossos deveres legais, sem receio de desagradarmos a quem quer que seja.
Se desses contatos iniciais não houver atendimento pela família, ou se os indicativos de maus tratos se repetirem, temos motivos suficientes para levar adiante a suspeita e atender ao disposto no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990):
"Art. 56. Os dirigentes de estabelecimentos de ensino fundamental comunicarão ao Conselho Tutelar os casos de: I – maus tratos envolvendo seus alunos; (...)”
Esse comunicado ao Conselho Tutelar deve ser feito preferencialmente por escrito, para que se formalize o cumprimento da obrigação, e indicar de forma sucinta o que foi observado no aluno, sem nenhum juízo de valor sobre quem é culpado ou não. Ao encararmos o problema de frente, lidamos com um assunto delicado e emocionalmente desgastante (a violência originada na própria família). Mas, além da consciência tranquila, podemos realmente colaborar para evitar danos maiores àquelas crianças.

Fonte:http://www.gestaoeducacional.com.br/index.php/colunistas-ge/celio-muller/848-o-abandono-afetivo-e-o-papel-das-escolas
acessado em 27/10/2015

Obrigações das escolas com pais separados

A edição da Lei n. 13.058, de 22 de dezembro de 2014, relacionada à guarda legal das crianças, trouxe uma preocupação extra às escolas brasileiras, que passaram a ter obrigações adicionais até mesmo com pessoas que antes lhes eram estranhas. O principal objetivo do legislador foi regulamentar e detalhar a chamada guarda compartilhada.  Esse tema, que tem gerado tantas divergências, em especial entre educadores e psicólogos, é o instituto pelo qual a criança permanece sob a guarda de ambos os pais mesmo após a separação, com a convivência rotativa em dias e horários certos para cada um, inclusive para efeitos de moradia.
Os defensores do sistema alegam que os pais têm igual direito de convivência com os filhos e maior proximidade e compartilhamento de responsabilidades. Mas outros especialistas também entendem que isso pode ser prejudicial à criança, na medida em que esta teria dois domicílios e receberia influência direta, e talvez contraditória, de dois grupos que não se entendem, com falta de uma referência familiar mais clara.
As instituições educacionais há muito tempo já aprenderam a conviver com a situação de alunos cujos pais não moram juntos, seja pelo fato de se separarem formalmente ou por jamais terem constituído uma unidade familiar. Mas o advento da guarda compartilhada trouxe evidentes complicações práticas devido às exigências – muitas vezes devidas – de pais que desejam retirar os filhos no final das aulas ou participar de reuniões e eventos na escola sem o consentimento do ex-cônjuge.
A norma citada anteriormente impõe duas situações novas, agora previstas no Código Civil Brasileiro:
Art.1583  [...] § 5º A guarda unilateral obriga o pai ou a mãe que não a detenha a supervisionar os interesses dos filhos, e, para possibilitar tal supervisão, qualquer dos genitores sempre será parte legítima para solicitar informações e/ou prestação de contas, objetivas ou subjetivas, em assuntos ou situações que direta ou indiretamente afetem a saúde física e psicológica e a educação de seus filhos.
Art.1584 [...] § 6o Qualquer estabelecimento público ou privado é obrigado a prestar informações a qualquer dos genitores sobre os filhos destes, sob pena de multa de R$ 200,00 (duzentos reais) a R$ 500,00 (quinhentos reais) por dia pelo não atendimento da solicitação.
Por consequência, a pessoa que comprovar ser pai ou mãe de aluno, mesmo que não seja contratante dos serviços, não detenha guarda judicial unificada ou compartilhada da criança e antes fosse completamente desconhecida, terá direito a qualquer informação da escola relacionada àquele estudante, inclusive a dados pedagógicos, disciplinares, financeiros e contratuais, sob pena de pagamento de multa financeira diária pela não apresentação.
Diante dessa regra, a recomendação é que o requerente comprove por documentos a paternidade alegada, a fim de proteger de alguma forma o sigilo de informações que poderiam desagradar o outro lado, mas que agora toda escola é legalmente obrigada a fornecer.

Fonte:http://www.gestaoeducacional.com.br/index.php/colunistas-ge/celio-muller/1181-obrigacoes-das-escolas-com-pais-separados
acessado em 27/10/2015

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Indisciplina e rematrícula

Como estamos exatamente no momento estratégico das rematrículas, surge meio que por instinto, nos pensamentos do gestor, a pergunta: Não seria esta a hora de retirá-los, negando-lhes a renovação para o ano letivo seguinte?
Infelizmente, a resposta é negativa. De acordo com o art. 5º da Lei n. 9.870/1999, os alunos já matriculados terão direito à renovação, com exceção dos inadimplentes. Como não estamos tratando aqui do problema de atrasos de pagamento, os órgãos judiciais e administrativos, em sua maioria, entenderão que o interesse da criança é de continuar na mesma escola, com os mesmos colegas, com a mesma metodologia de ensino e localidade física conveniente para a família, e darão pouca ou nenhuma relevância aos atos cometidos meses antes.
Por isso, o momento certo para se lidar com a indisciplina não é no fim do ano letivo, mas durante as aulas, imediatamente após serem observadas e apuradas as atitudes indisciplinares dos alunos. O objetivo principal é corrigir o comportamento logo após a ocorrência, para que não voltem a ocorrer fatos incompatíveis com a socialização. De outra forma, não faria sentido aguardar o re­cesso escolar para só então punir o indisciplinado. Isso teria característica de castigo mais direcionado à família do que ao aluno, distanciando-se do aspecto educativo desejado e trazendo a impressão de represália ou de problemas que envolvam questões pessoais.
A correção não é necessariamente uma punição, mas uma medida planejada que objetiva aproximar o aluno do convívio pacífico com seus pares. Ela será sempre baseada no regimento escolar, pois seu vínculo com a metodologia de ensino e a proposta pedagógica é muito grande. Nesse contexto, as advertências verbal e por escrito, além da suspensão, são normalmente as sanções mais utilizadas e devem ser aplicadas de maneira coerente, proporcional à gravidade do ato praticado, sempre garantindo ao aluno acusado o direito de defesa.
Raramente se encontram regimentos que preveem a negativa de rematrícula como outra modalidade de medida disciplinar contra alunos transgressores. Mas, mesmo nesse caso, não recomendamos fazê-lo, por causa do risco de se caracterizar discriminação e a família obter ganho de causa em eventuais ações contra a escola.
Fonte: http://www.gestaoeducacional.com.br/index.php/colunistas-ge/celio-muller/588-indisciplina-e-rematricula
acessado em 26/10/2015

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A sala de aula e as necessidades especiais

A escola é o primeiro lugar que a criança frequenta fora de seu círculo familiar, e a maneira como ela é tratada nesse ambiente pode marcar toda a sua vida. A expressão “necessidades educacionais especiais” pode ser utilizada para referir-se a crianças e jovens cujas necessidades decorrem de sua elevada capacidade ou de suas dificuldades de aprender. Está associada, portanto, à dificuldade de aprendizagem, não necessariamente vinculada à alguma deficiência.
A educação especial é uma modalidade de ensino destinada a educandos com necessidades educativas especiais no campo da aprendizagem, originadas quer de deficiência física, sensorial, mental ou múltipla, quer de características como altas habilidades, superdotação ou talentos.
Embora as necessidades especiais na escola sejam amplas e diversificadas, a atual Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva aponta para uma definição de prioridades no que se refere ao atendimento especializado a ser oferecido pela escola a quem dele necessitar. Nessa perspectiva, é  considerado aluno com necessidades especiais aquele que, “por apresentar necessidades próprias e diferentes dos demais alunos no domínio das aprendizagens curriculares correspondentes à sua idade, requer recursos pedagógicos e metodologias educacionais específicas”. A classificação desses alunos, para efeito de prioridade no atendimento educacional especializado (preferencialmente na rede regular de ensino), consta da referida política e dá ênfase a pessoas com deficiências mental, visual, auditiva, física e múltipla; com condutas típicas (problemas de conduta); e com superdotação.
Ainda que as classificações e as terminologias sejam criadas para facilitar o trabalho educacional e, de certa forma, dinamizar os procedimentos, elas podem também gerar consequências negativas quando utilizadas para rotular, discriminar ou até mesmo disseminar ideias preconceituosas e pejorativas em relação aos indivíduos que delas façam parte. As palavras não são neutras ou imparciais. É importante reafirmar que as necessidades especiais não se referem às limitações apresentadas pelas pessoas, mas sim às exigências de ampla acessibilidade que realmente possam oportunizar condições de independência e autonomia desses indivíduos.
O atendimento a alunos com necessidades educacionais especiais pressupõe assegurar condições para o ingresso e a permanência deles por meio das seguintes ações em curto prazo:
a) flexibilização do processo ensino-aprendizagem, de modo a atender às diferenças individuais;
b) adoção de currículos abertos e propostas curriculares diversificadas para atender a todos e propiciar o progresso de cada um em função das possibilidades e diferenças individuais;
c) oferta de subsídios aos professores para a realização dessa tarefa, por meio de estudos de documentos, sugestões de leituras, dinâmicas organizadas pelos serviços de orientação educacional e psicologia escolar, troca de experiências entre os docentes e reuniões com a equipe escolar;
d) envolvimento de toda comunidade escolar no processo de inclusão, por meio de reuniões com a equipe de apoio técnico-pedagógico.
A educação é o alicerce para o desenvolvimento de qualquer cidadão, e incluir o aluno com necessidades educacionais especiais é também uma forma de respeitá-lo e garantir a possibilidade de seu crescimento. No entanto, as dificuldades existem – e não são poucas – e ficam bem claras quando observamos a realidade de forma mais crítica. Afinal, colocar o aluno em sala regular e não atender ao que ele realmente necessita não é inclusão.
Fonte:http://www.gestaoeducacional.com.br/index.php/colunistas-ge/renata-monteiro-da-costa/1077-a-sala-de-aula-e-as-necessidades-especiais,
acessado em 23/10/2015

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Os desafios da gestão escolar na Era do Conhecimento

É difícil não concordar que o mundo (pelo menos aquele composto pelos países industrializados) atualmente funciona sob uma nova lógica conhecida como Era do Conhecimento. Para operar bem nesse novo contexto, ao contrário do que somos levados a acreditar, não basta saber deslizar os dedos por uma tela interativa. O que conta nessa nova fase da humanidade é a capacidade de usar o próprio cérebro para processar uma quantidade cada vez maior de informações, parâmetros e lógicas diferentes, muitas vezes até conflitantes. É a fase do homo uber sapiens. Quem achar que a chave do conhecimento reside, senso estrito, na habilidade digital na tela de um tablet, corre o sério risco de ser substituído por um.
Para usar o cérebro no processamento de conhecimento adquirido e, com isso, produzir novas ideias, solucionar problemas cada vez mais complexos e deixar um legado mínimo no mundo e também para subir na vida, primeiramente é preciso ter um que funcione. E muito bem. Isso significa que, desde a mais tenra idade, esse órgão deve ser corretamente estimulado para criar um sistema competente de sinapses juntamente com um arcabouço emocional que trabalhe a favor da sua permanente provocação.
A segunda parte da equação é o conhecimento em si, pois seus componentes precisam estar no cérebro para que este possa processá-los. Portanto, é preciso também desde cedo acumular na caixola não só quantidades industriais de informações variadas, mas aprender a relacioná-las e reformulá-las utilizando lógicas e linguagens igualmente variadas, como a matemática, a física, a biologia, a literatura e a arte.
Sorte de quem tem uma boa escola para proporcionar, em um estágio precoce da vida e de maneira estruturada, as duas oportunidades: aprender a usar o cérebro e acumular elementos de conhecimento com diferentes formas de empregá-lo. Este então é o desafio das escolas do Brasil na Era do Conhecimento: fazer com que os alunos percebam que têm massa cinzenta entre suas orelhas, que ela precisa ser estimulada para não atrofiar e lhes oferecer experiências de aprendizado convincentes de que vale a pena turbinar essa parte do corpo acima de todas as demais.
Quem escolhe os desafios de cada instituição e desenha as formas de vencê-los são os gestores. Assim, não importa se o gestor é o ministro da Educação, o secretário Estadual de Educação ou o diretor de Escola, pública ou privada. Daqui para frente, todo gestor da área de educação no Brasil precisará buscar metas de aprendizagem muito mais ambiciosas para seus alunos e implementar operações escolares com altos padrões de eficácia e eficiência.
De onde tirar as metas altas? Não dá tempo de reinventar a roda ou de plantar jabuticabas, vamos aprender com quem já fez. Mais uma vez, sem surpresas, vamos aos países industrializados, pelo menos aqueles que têm conseguido fazer a maioria de seus alunos operar em expectativas cognitivas mais gulosas: Austrália, Canadá, Portugal e Cingapura, por exemplo.
Depois, os gestores terão de garantir que os professores estarão aptos a materializar essas metas em salas de aula. Podemos achar que dar tablets para os alunos e nos livrar dos incômodos intermediários é uma boa ideia, mas prefiro deixar os gestores pensarem por cinco minutos.
Há alunos que precisarão de apoio extra dentro e até fora da escola, é essencial reconhecer isso para não desperdiçar cérebros ou deixá-los florescer no “lado negro” da força. O apoio tanto pode ser algumas horas de tutoria, com uma merenda reforçada, como um assistente social para apoiar a família. Tanto faz. Está na hora de reconhecer que as escolas não operam sozinhas. Obviamente que metas para além do ordinário dependem de condições de ensino e materiais de apoio de acordo. É preciso prever não só o orçamento, mas a logística que garanta cada item no lugar certo e na hora certa.
Fazer tudo isso funcionar dá quase o mesmo trabalho que cada ministro, secretário e diretor já estão dispostos a enfrentar hoje. A questão é a vontade política para exigir mais dos professores, dos alunos e da própria sociedade. Para esse desafio é que não sei se estamos prontos.

Fonte:http://www.gestaoeducacional.com.br/index.php/colunistas-ge/ilona-becskehazy/1213-os-desafios-da-gestao-escolar-na-era-do-conhecimento
acessado em 22/10/2015

Escola 3.0 não é só tecnologia

O tema Educação 3.0, bastante comentado atualmente, reporta de uma forma ou outra à necessidade de uma escola 3.0. Embora muito explorada do ponto de vista pedagógico, a introdução das novas tecnologias digitais nas salas de aula não se resume a isso. O conceito vai muito além de espalhar pelas salas computadores e tablets, lousas eletrônicas e de realidade virtual. Para que seja efetiva, a escola 3.0 precisa, antes de tudo, de profissionais qualificados, que lidem com as tecnologias de maneira natural, e, principalmente, de infraestrutura e gestão adequadas.
Algumas das práticas da escola tradicional estão, de fato, emperrando a ideia de Educação 3.0. Isso porque partem de premissas completamente diferentes. Para que a efetividade da Educação 3.0 se faça sentir nas salas de aula, é importante sanear o ambiente educativo e o modelo de gestão educacional vigentes, implantando instrumental diferente daquele que hoje vigora. Vejamos algumas dificuldades que emperram o processo.
A primeira delas se relaciona ao ambiente físico. Nada mais de laboratórios de informática, carteiras em linha e lugares marcados. As novas tecnologias e o uso eficiente delas no conceito de Educação 3.0 pressupõem um espaço dinâmico, que propicie trabalhos em equipe e trocas de experiências entre os alunos. Essa troca se dá tanto de forma presencial quanto virtual. Trocar experiências nas salas de aula e aprender em qualquer lugar. Daí o pressuposto de que os alunos, assim como os professores, possam se utilizar de seus próprios dispositivos digitais, como os smartphones pessoais.
O viés de aprendizagem coletiva introduz a necessidade de uma rede integrada como espaço de troca, física e virtual, contando com a participação de todos os agentes envolvidos com o processo educativo, incluindo as famílias. A aprendizagem colaborativa é um dos pilares da Educação 3.0 e isso envolve, de maneira efetiva, outros agentes além daqueles que hoje se apresentam. Cabe à escola 3.0 prover o ambiente para que tudo aquilo que seja criado por meio dessa interação seja também preservado, por isso a necessidade de estruturas mais abertas e do uso de ferramentas digitais, como as redes sociais privadas, as quais vêm ganhando cada vez mais espaço no arsenal das escolas. Se antes os portais educacionais eram o diferencial, agora as redes sociais privadas aparecem como as vedetes. Aprendizagem colaborativa e plataformas de colaboração são premissas indispensáveis a essa nova maneira de aprender.
Essa dinâmica, por sua vez, insere no contexto educacional a premissa de que a aprendizagem não se restringe mais aos limites da escola. Aprender é algo que se faz em todos os lugares, o tempo todo. A diferença é a existência, ou não, de um agente mediador. É aí que entra a escola. Ela deve ser o elo e, para isso, precisa estender seus domínios. Para tanto, deve viabilizar a maior disponibilidade dos professores e tutores para atender às demandas dos alunos. O papel de provedor de conhecimento do antigo professor perde lugar para o orientador de aprendizagem. Mas toda essa disponibilidade esbarra no entendimento dessa nova realidade, por parte dos professores, e nos arcaicos modelos de relações de trabalho entre escola e profissionais. Convenções coletivas e contratos de trabalho, baseados em horas-aula, são verdadeiras camisas de forças. As relações trabalhistas e a legislação precisam urgentemente ser atualizadas para o contexto, de maneira que todos os participantes do processo sejam beneficiados. Contratos em tempo integral precisam ser introduzidos no segmento, em substituição ao conceito de horas-aulas. No seu tempo de trabalho, o professor não apenas estará em sala de aula (horas-aula), mas também envolvido com atividades variadas, como projetos, pesquisa, planejamento, interação com alunos, comunidade, pares e agentes diversos. Em resumo, uma jornada em que “dar aula” é apenas parte do processo.
Esse novo perfil também vai ampliar a necessidade de novas competências por parte dos professores, que também precisarão desenvolver habilidades em gestão de projetos, comunicação, trato com mídias e tecnologia. Também vai demandar trabalho em equipe, com professores, alunos, famílias e outros agentes da comunidade. O manejo da turma e a capacidade de inspirar serão habilidades tão ou mais importantes quanto o próprio conhecimento específico da disciplina.
Outro fator limitador à introdução do conceito de escola 3.0 é que ela precisa de espaços abertos, em que se possam juntar turmas inteiras em torno de projetos específicos, geralmente voltados para solução de problemas da própria comunidade do entorno. E, nesse particular, “turmas inteiras” não se restringem apenas à determinada série. Pressupostos como divisão dos alunos por idade e salas limitadas por paredes fixas caem por terra. A nova escola deve oferecer espaços multiuso e flexíveis, nos quais alunos de séries diferentes aprendem uns com os outros, com a ajuda de mais de um professor, simultaneamente. E, embora juntos, os alunos serão avaliados individualmente. Seu desempenho deverá ser monitorado em tempo real, tanto na escola quanto fora dela, por meio de redes privadas e plataformas de aprendizagem e avaliação virtuais. Tal situação demanda, portanto, infraestrutura e introdução de novos conceitos de gestão e docência.
Como se viu apenas pelos poucos pontos abordados, a Educação 3.0 não é apenas uma questão de tecnologia. É um conceito muito mais amplo e que demanda um projeto consistente na gestão da escola e na preparação de seus agentes. Além disso, uma escola 3.0 precisa abrir e expandir suas fronteiras para além de seus muros, não permitindo achar-se o repositório do conhecimento, mas sim o lugar mais gostoso e divertido para se aprender coisas novas.

Fonte:http://www.gestaoeducacional.com.br/index.php/colunistas-ge/marcelo-freitas/1140-escola-3-0-nao-e-so-tecnologia
acessado em 22/10/2015

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Pátria educadora. Onde mesmo?

Nos primeiros meses deste ano, três notícias sobre educação me deixaram particularmente satisfeito. Já faz algum tempo que insisto na tese de que a escola e seus processos precisam ser redescobertos. Veja bem, amigo leitor, não estou dizendo que precisam ser melhorados ou adaptados. Estou dizendo que a escola precisa ser reinventada. Adaptações já não cabem mais. O modelo exauriu. Portanto, é preciso repensar a escola com base em outros paradigmas, considerando os avanços da tecnologia, as mudanças sociais no âmbito das famílias, as necessidades inerentes ao novo mundo do trabalho e as questões de sustentabilidade socioambiental.
Mas, como isso ainda não se constitui realidade, vejo experiências, mundo afora, que promovem pontos de ruptura e quebra de paradigmas. E, como disse, três delas me chamaram atenção.
A primeira vem da Finlândia, a verdadeira “pátria educadora”. Como é de conhecimento geral, durante muitos anos a Finlândia liderou ou ficou entre os primeiros colocados no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), ranking que mede o desempenho de estudantes de 15 anos em 65 países. Na última edição, no entanto, a Finlândia perdeu espaço para países asiáticos e para as europeias Suíça, Holanda e Estônia no índice geral que mede o aprendizado dos alunos em matemática, leitura e ciências.
E qual a boa notícia, então? É que lá está previsto, para 2016, a implantação de um novo currículo, cujo foco está baseado nas competências transversais (genéricas) que devem ser trabalhadas por meio das disciplinas escolares. Serão sete áreas de competências transversais, desenvolvidas em conjunto com as disciplinas escolares. Trata-se, portanto, de uma nova maneira de combinar o ensino baseado em competências com aquele baseado nos conteúdos. Mais: as práticas colaborativas ganharão mais espaço em sala de aula, por meio das quais os alunos poderão trabalhar com vários professores, simultaneamente, durante o estudo de projetos baseados em fenômenos. Em resumo: mais contexto, mais aplicabilidade, mais trabalho em grupo e mais de um professor em sala de aula ou espaços de aprendizagem, mudando de fato o papel docente e contextualizando o aprendizado, segundo informações veiculadas pela imprensa.
A segunda boa nova vem de Barcelona, na Espanha. Escolas jesuítas da Cataluña deram início a um novo modelo de ensino, com a eliminação de conteúdos, testes e horários e a transformação dos espaços físicos das salas de aula. A justificativa é que, com o modelo atual, os estudantes sentem-se entediados e acabam por abandonar os cursos. O projeto leva o nome de Horizonte 2020 e, para implementá-lo, os jesuítas mudaram o formato das salas de aula, derrubando paredes e transformando-as em grandes espaços para o trabalho em equipe. No novo espaço estão sofás, carrinhos, muita luz, cores, tabelas organizadas para o trabalho em grupo e acesso a novas tecnologias.
E tem mais: nas três escolas que estão experimentando essa novidade, as turmas de 30 alunos foram agrupadas e formam turmas de 60 alunos, nas quais, em vez de um professor para cada 30 alunos, como anteriormente, estão presentes agora três professores para a turma de 60 alunos. Eles acompanham diariamente os estudantes e atuam como tutores nos projetos, por meio dos quais os alunos adquirem as habilidades básicas previstas no currículo. Nesse modelo, não há horários rígidos e os alunos têm liberdade para sair das salas quando se sentem cansados. As mudanças têm demonstrado bons resultados e, principalmente, motivado os alunos. Segundo os responsáveis pelas mudanças, é na escola onde mais se fala em trabalho em equipe e onde menos se pratica. E essa é uma situação que o projeto procura mudar, além de reduzir o volume de conteúdos, considerados excessivos. A premissa é de que os alunos aprendem muito melhor quando percebem a aplicação prática do que estão recebendo. Em síntese, a proposta do modelo é olhar para os rostos das crianças e ajudá-las a desenvolver seus projetos de vida, descobrir seus talentos, encontrar significado para o que fazem, o que querem atingir, ou seja, para interpretar, refletir, perguntar. Com a família e a internet, o propósito é “construir pessoas”. O projeto foi noticiado na plataforma News Republic.
A última notícia vem do Nordeste brasileiro. Uma faculdade particular resolveu promover uma mudança radical em seus espaços de uso comum, adotando um visual arrojado e bem adaptado. Segundo a própria instituição, oferece como “um de seus maiores diferenciais ambientes sempre muito bem decorados e que remetem a conceitos culturais e de mercado, dando ao aluno a sensação de estar sempre em um local diferente”. Esse novo ambiente é constituído de salão de jogos, lan house, espaços zen, music e games. Além de corredores temáticos e salas customizadas. Tudo para deixar o espaço ainda mais diferente e agradável. O visual se parece ao de um shopping center, o que me reporta a um artigo que escrevi em meados da década de 1990, quando propunha um novo modelo de escola, a que chamei na época, por razões óbvias, de Shopping Cultural.
Diante dessas experiências, sigo confiando que, em um futuro não muito distante, tenhamos um novo modelo de escola, mais compatível com nossos dias e as demandas de uma sociedade plugada e em constante processo de mudança.

Fonte:http://www.gestaoeducacional.com.br/index.php/colunistas-ge/marcelo-freitas/1307-patria-educadora-onde-mesmo
acessado em 21/10/2015